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dez 25

Autor Desconhecido

Posted on sábado, dezembro 25, 2010 in Crônicas (minhas), Memórias da Juventude

Houve duas mulheres que amei
Um dor que nunca passou
Uma me machucou
A outra eu machuquei

Para a primeira, me mosto forte
Para a segunda, uma criança
Cansei desta dança!
Por isso jogo com a sorte

No dia em que esta dor passar
Será o fim
E então assim
Voltarei a amar

mai 4

Prólogo

Posted on terça-feira, maio 4, 2010 in Crônicas (minhas)

Atlântico (voando), 7 de abril de 2010.

Estou voltando para Salvador, mais precisamente estou no voo 157 da TAP. Me diagnosticaram um câncer de pele, “modelo” melanoma. Segundo o que minha mãe entendeu e me disse por telefone, meu companheiro câncer está no nível três. Procurei na internet e vi que este tipo de câncer possui cinco níveis. Pelo que li começa com zero e vai até quatro. Mas também pode ser que o médico tenha dito três pra minha mãe considerando que a contagem começa de um e vai até cinco. Espero que seja assim, porque desta maneira eu ganho um nível. Neste momento ganhar um nível significa sair de 20 à 60% para 80 à 90% de chance de sobreviver pelo menos cinco anos após o tratamento.

Não sou um expert em melanoma, não ainda. A única informação que tenho foi o que li ontem na Wikipedia, na versão em inglês, porque a versão em português é bem fraquinha. Se meu Companheiro estiver no nível dois o tumor ainda esta na derme, a camada logo abaixo da epiderme, que é o que conhecemos como pele. Entretanto, caso meu Companheiro esteja no nível três, a cobra vai fumar. O nível três quer dizer que já passou pro estágio de metástase, que é a migração de Companheiro para outros órgãos. Inicialmente Companheiro vai para os gânglios linfáticos, e ali é conhecido como câncer linfático. Outros possíveis passeios de Companheiro o levam ao fígado e ao cérebro. É aí que entra a cobra fumando na história.

Um detalhe à considerar é que hoje faltam oito dias pro meu trigésimo aniversário. Exatamente, eu ainda não tenho 30 anos. Recebi a notícia ontem, dia 6. Estava na Universidade, sem conseguir trabalhar direito, pois já esperava a ligação de minha mãe. Nunca imaginei que o resultado da biópsia pudesse ser tão cruel. Acho que esta palavra não define bem o que passou pela minha cabeça naquele dia. Enquanto minha mãe me falava com uma voz incrivelmente serena como seria o tratamento, quanto tempo duraria, uma coisa veio imediatamente a minha cabeça: F-U-D-E-U! É maluco… a casa caiu.

Eu sabia o que tinha que fazer, ainda que houvera algo ameaçando a minha vida, eu consegui manter a razão. Claro que chorei. Mas sabia exatamente o que tinha que fazer. Desliguei o telefone, fiquei alguns segundos olhando fixamente para o nada, me levantei a fui à sala do chefe. O chefe é o investigador principal do grupo de pesquisa no qual eu estou fazendo meu doutorado na Universidade Autònoma de Barcelona – UAB.

Emílio, o chefe, sabia que eu tinha ido ao Brasil no dia 24 de março, antes da Semana Santa, para fazer uma visita ao médico. Na verdade eu não expliquei muito bem à ele o que iria fazer quando disse que iria ao Brasil. Mas acredito que ele sabia, pois Lola, a namorada dele (acho que é esta a categoria em que o relacionamento deles se encaixa) e minha diretora de tese, provavelmente já devia ter informado. Como eu havia esquecido de informar à Lola sobre a minha viagem, ela me mandou um email perguntando porque eu tinha ido ao Brasil. Pedi desculpas por não haver informado, eu realmente havia esquecido, e disse que tinha viajado para ir ao médico, um oncologista com quem eu já havia me consultado antes. O detalhe é que haviam cinco anos que eu não voltava nele, embora o mesmo tenha me dito categoricamente que eu tinha que ir todos os anos. Expliquei à Lola, que iria remover três sinais e que o médico iria pedir uma biópsia.

Até então, na minha cabeça eu sabia tudo o que isso poderia vir a ser, tinha completa consciência de tudo. Mas na minha mente ainda pairava a velha idéia: “que porra nenhuma… não vai ser nada”. Ledo engano.

- Chefe, preciso falar com você – disse eu ao abrir a porta.

- Hombre! Já está de volta?

- Já, mas preciso regressar o mais rápido possível. Me diagnosticaram um câncer de pele do tipo melanoma nível três – vomitei todas as palavras de uma só vez, sem respirar.

Dava pra ver a cara dele se transformando em algo que eu nunca consegui decifrar, e que apesar dos quase três anos trabalhando ao lado dele, nunca havia visto antes. Fui saindo da sala pois já estava com a voz embargada enquanto ouvia ele me dizer que eu poderia contar com ele para qualquer apoio, para o que fosse necessário. Mas a verdade é que neste momento eu só precisava de uma coisa: chorar. E chorei… não muito na verdade, mas chorei o que tinha pra chorar naquele momento. Fumei dois cigarros enquanto chorava na garagem da Escola Técnica Superior de Engenharia da UAB. Neste momento estava saindo uma das professoras do nosso departamento, e como de praxe me cumprimentou com da forma de sempre:

- E aí Leo, tudo bem? – perguntou-me Anna Morajko.

- Não.

- Ué, o que está acontecendo, algo ruim?

- Muito, você não tem idéia Ania.

- Então depois você explica, agora tenho que ir – me respondeu enquanto seguia com o carro, provavelmente para ir buscar os filhos na escola.

A minha razão ainda me dizia que eu precisava fazer algumas coisas. Uma delas era informar à minha diretora de tese, não poderia esquecer de Lola outra vez, e à Tomàs Margalef, o diretor do departamento. Além disso deveria providenciar a passagem de avião e dar uma aula das 18:30 às 21:00. Eram 16:30. Subi o elevador, fui ao banheiro, limpei o nariz cheio de meleca do chororô e levei um pedaço extra de papel para a sala de Tomàs.

Bati na porta da sala de Tomàs e ao abrir encontrei reunidos: Lola, Tomàs e Ana Cortès, a responsável pela matéria da aula que eu tinha que dar mais tarde. Aproveitei a sorte de encontrar todo mundo junto e exclamei:

- Ótimo que estão todos juntos!

Lola olhou para a minha cara, e perguntou:

- Recebeu o resultado dos exames? Está tudo bem?

Neste momento eu não pude segurar o choro. Ainda bem que ela se levantou rápido e me abraçou, porque minha perna começou a tremer. Eu pensava que perna tremendo era somente uma expressão, mas neste dia eu descobri que a expressão tem fundamento. Pela imagem meio borrosa que se formava através das lágrimas pude perceber Ana perguntando a Tomàs o que estava acontecendo. Tomàs sabia da minha viagem, mas provavelmente não sabia o motivo dela. Eu e Lola ficamos abraçados ao estilo “chora, chora que faz bem” por mais de um minuto. E eu chorava. Chorava e limpava o nariz no PH (papel higiênico) que tinha arrumado no banheiro. Eram tantas emoções, mais até do que as que Roberto Carlos podia cantar, que o choro, embora necessário e inevitável, não estava funcionando. Aquilo não estava me aliviando em nada, mas de fato estava me confortando. Só me lembro de ter chorado em público duas vezes. Esta era a terceira.

Ainda tinha que dizer o que havia acontecido, afinal até então a única coisa que eles sabiam é que eu estava chorando. Afrouxei o abraço com Lola, respirei o que pude, limpei algumas lágrimas e expliquei tudo. Olhava para Tomàs, que alguns meses atrás tinha perdido a esposa para o câncer também, e via como ele abaixava a cabeça e expressava um bom e conhecido joder!. Joder equivale à um “caralho” em português do Brasil. Percebi a mesma expressão em Ana, que segundo às más línguas, principalmente a minha, era a atual namorada de Tomàs. Ana se separou do marido, que também é professor do mesmo departamento, logo após a morte da esposa de Tomàs. Além do mais os dois sempre foram muito próximos, eu posso até estar errado, mas duvido que eles não estejam tendo nada.

Ao mesmo instante que souberam da situação Ana Cortès pediu para que não me preocupasse com as aulas, alguém iria em meu lugar. A cara de Tomàs continuava nem semblante perdido… Ana se levantou e me deu um abraço sincero. Ela é uma coroa arrumada, se não estivesse namorando com Tomàs, eu até que daria umas olhadas de prospecção, mas Tomàs é muito gente boa, logo a minha ética me proíbe.

Ao contrário de muitos outros alunos do doutorado, eu sempre tive uma excelente relação com Tomàs. Mesmo antes dele virar diretor do departamento. Acredito que nossa boa relação começou no dia em que ele me ouviu dizer, em sala de aula, que havia passado a noite inteira fudendo e por isso estava com sono. Juro que falei baixo, não sei como ele ouviu. Na hora inventei uma desculpa esfarrapada de que havia dito “estudando”. Em espanhol até que cola, pois as palavras se parecem. Tomàs também me deu um abraço sincero. Tão sincero quando o que eu dei nele no dia do enterro da esposa dele.

Fiquei alguns minutos na sala antes de que Lola me chamasse para dar um passeio fora do edifício. Na verdade eu queria comprar a passagem, mas a presença daquela mulher ao meu lado me confortava de alguma forma. Acho que o fato dela ter tido várias perdas na família também por questões de doença fizeram ela ser bastante reconfortante neste aspecto. Não digo pelas palavras, pois as palavras nestes momento são sempre as mesma. Mas a sinceridade e a emoção que acompanhavam as palavras eram reconfortante.

Fumei mais dois cigarros enquanto dávamos nosso passeio, aproveitei e contei à ela como havia sido a minha viagem anterior ao Brasil, onde encontrei com outros dois ex-companheiros de doutorado para falar sobre um artigo que queríamos publicar. Acho que neste dia foi realmente o dia em que eu vi Lola falar com o coração. Em outras situações que estive com ela brigando, discutindo, fazendo as pazes ou mesmo me redimindo, sempre fomos muito sinceros. Mas neste dia era diferente. Parecia que ela entendia a minha dor.

Ao subirmos no elevador ela me perguntou o que eu iria fazer depois do doutorado. Sinceramente eu não sabia o que responder. Sempre tive muito claro em minha cabeça o que iria fazer. Mas neste momento eu tinha um problema: não sabia se estaria vivo para isso, então como responder? Resolvi dizer os planos que tinha antes de saber que tinha Companheiro no braço. Sim, o câncer se desenvolveu no braço direito, na parte externa, a que toma sol, claro.

- Lola, veja bem, eu pretendo fazer dois ou três pós-doutorados pelo mundo. Quero viajar, aprender outros idiomas, ganhar fluência em inglês. Pretendo fazer isso por cinco à dez anos.

- E depois? Onde pretende fincar raízes? – me perguntou Lola.

- Não quero morar nos Estados Unidos. No Brasil pesquisador morre de fome. Provavelmente vou ficar por aqui mesmo pela Europa.

- Ótimo. – esta foi a única resposta dela.

Ao chegar em minha sala, que é compartilhada com mais dezenove pessoas, eu tinha claro o que deveria fazer. Comprar a passagem. Liguei para meu pai. Foda-se se é ligação internacional de celular para celular. Companheiro esta aqui, esta visita indesejável alojada no braço e que preciso me livrar dele o mais rápido possível.

- Bicho – esta é uma dos formas em que nos dirigimos um ao outro – já está sabendo?

- Não, qual foi o resultado? – Neste momento me lembrei que meu pai, ao se despedir de mim no aeroporto, havia dito que como eu “nasci com a bunda virada pra lua” o exame não ia dar em nada. À propósito, “nascer com a bunda virada pra lua” é apenas uma expressão de ter sorte.

- Deu merda. é câncer, melanoma nível três, vai de um a cinco. – Neste momento eu ainda não sabia o lance dos níveis, estava apenas repetindo o que minha mãe havia me contado.

- Porra bicho, e o que voce quer que eu faça?

Eu ainda não havia entendido porque minha mãe não ainda não tinha contado para meu pai. A única explicação seria o fato de que provavelmente ela estava por algumas horas com a visão fixa no nada, aquela mesma que me durou alguns segundos. Filho é filho, ainda mais eu o caçula. Me dei conta que minha mãe pretendia esperar meu pai chegar em casa para contar. Provavelmente para não aterrorizar o coroa de 66 anos, coisa que eu acabei fazendo. Mas lá em casa é assim, todo mundo reage mais ou menos bem às más notícias.

Informei a meu pai que iria pedir à Andreia, da agência de viagens, que mudasse a passagem que eu tinha para ir no Natal e que ele ficasse alerta para resolver qualquer problema ou mesmo pagar a taxa de mudança se fosse necessário. Ele reagiu bem. Ouviu tudo e se lamentou pelo resultado do exame. Em poucos minutos já havia enviado o email para Andreia, e não tinha mais nada para fazer na UAB. Lola e Emílio estavam na sala dos estudantes, claramente para me dar apoio, mas o que eu queria era ir embora. Expliquei para Gonzalo Zarza o que deveria fazer na aula de hoje com os alunos, era ele quem iria dar a aula em meu lugar. Ele ouviu tudo, na verdade nem precisava, pois ele dava a mesma matéria. Entretanto não saía da cara dele a pergunta: o que está acontecendo?

Os únicos que sabiam que eu tinha tirado um pedaço do braço para analisar foram os que me cumprimentaram durante a manhã e ameaçaram dar um tapinha nos meu pontos. Estas pessoas se resumiam a Álvaro Chalar, um boliviano da melhor qualidade, com quem dividi apartamento por uns 6 meses, Diego Lugones, um argentino meio “menino grande”, mas de bom coração, e Don Porfídio Hernadez, um professor do departamento. Todos concordavam com meu pai, e diziam para eu relaxar que isso não iria ser nada. Eu estava o mais relaxado que podia. Afinal porque um cara gente boa que nem eu iria ter um câncer antes dos trinta anos?

Então fui me despedir de Álvaro e Gonzalo, expliquei o que estava acontecendo, não ouvi muitas palavras, mas recebi muitos abraços. Me despedi também, mas sem muitas explicações, de Hayden Stainsby, o australiano mais gente boa que eu conheço, embora que de australiano só conheça ele, o cara é realmente gente boa. Foi quando João Artur Dias Lima Gramacho, o que tem nome de nobre, um cara de pouca palavras mas de atitudes nobres, é claro, me disse que iria me acompanhar até Barcelona. Neste momento passa Ronal, um venezuelano, que embora gente boa, custa ter uma relação maior do que o superficial com as pessoas, me perguntou o que estava acontecendo. Isso é interessante porque em espanhol essa pergunta normalmente é feita assim: ¿qué te pasa?. E pra isso eu arrumei em milisegundos a resposta perfeita: câncer. Os olhos deles se abriram até quase pular fora das órbitas, e então vieram as palavras que, embora sinceras, devolveram à superficialidade a nossa relação. Recebi mais um abraço sincero.

Ao descermos pelo elevador, Jonny Boy, o que tem nome de nobre, me disse que já havia informado à Eduardo, o Argollo, e que, como Alfrânio estava aqui em Barcelona, propôs sairmos para tomar uma. Eduardo na sempre educada forma de falar, perguntou se eu aceitava ou se isso seria um incômodo pra mim. Porra, eu descobri um câncer, não é cirrose, e nem no fígado é o câncer! Claro que eu quero tomar uma! O que melhor do que cachaça pra esquecer das nossas mazelas? Como ele trabalha na HP, que fica perto da UAB, ele nos ofereceu uma carona. Ao entrar no carro, ele me disse que, desde que soube, uma hora antes, já havia lido um monte de coisas sobre melanoma e me perguntou se eu estava com os gânglios inflamados. Ao dizer que não, Doutor Eduardo, sim ele tem Ph.D mas não é médico, diagnosticou Companheiro como sendo de nível dois. Me falou do tratamento, e etc. Depois percebi que a fonte dele deve ter sido a mesma que eu a minha, pois a informação estava correta em todos os aspectos.

Entramos no bar, bebemos, comemos e esquecemos do assunto. Eu não tenho dúvida que tudo isso foi uma tentativa de afastar minha cabeça do problema. Uma tentativa sincera, e que funcionou. Claro que eu gosto da companhia deles, senão não seriam meus amigos, mas sair pra um bar as cinco e meia da tarde de uma terça-feira e faltar o curso de alemão, não é uma atitude normal para Eduardo. Eu percebi o esforço dele. E o de João também, afinal ele deveria estar em casa fazendo a janta pra Graziela. Graziela é a namorada-esposa dele, coincidentemente amiga minha de infância. Mais coincidentemente encontramos ela no metrô, enquanto voltávamos para casa. Ela foi informada dos fatos, mas levou algumas horas digerindo a idéia, pois me mandou uma mensagem meia-noite e meia. Enquanto eu estava no bar minha mãe me ligou dizendo que Andreia confirmou minha passagem para o dia seguinte, meio-dia. Ao sair recebi mais três abraços sinceros.

Já em casa, lá pelas onze da noite Álvaro Chalar me liga. Me deseja força e que eu fique bom, logo passou para Zeynep, sua esposa, uma turca que ele conheceu no Japão e com quem mora na Espanha. Isso sim que é globalização! Zeynep me saudou em espanhol, mas logo pediu para falar em inglês, para que pudesse expressar o que estava sentindo. Me desejou força outra vez, e disse que embora tenha pouco contato comigo, ela gosta muito de mim. É recíproco. Eu também gosto muito dela, e de Álvaro é claro. Eles tem uma simplicidade e sinceridade que, como diz Gonzalo, é difícil alguém não gostar deles. A ligação de Zeynep me tocou. O fato dela não ser muito próxima, o fato de ser uma pessoa que pela qual eu tenho muita estima, mas também pelo que ela me falou. Pediu para que eu fosse forte e não desistisse.

Arrumei uma pequena mala e fui para a cama, onde por muitas horas não consegui dormir.

Lola voltou a me ligar pela manhã. Pelo telefone é meio complicado sentir o mesmo reconforto, pois eu não sei o que responder aos desejos de melhoras e saúde que as pessoas me dirigem. Aproveitei para informar a Alexandre Ganso Strube de tudo o que estava acontecendo, afinal, ele estava na Alemanha, e cairia de pára-quedas em meio a tudo isso, além dos próprios problemas dele. Eu também precisava pedir para que ele levasse minha moto à Universidade. Claro que ele iria me ajudar, afinal acredito que poucas pessoas vêem Alexandre como ele realmente é. Eu vejo, e mais, aceito e respeito ele. Não sei se ele sabe disso, vou dizer logo, afinal nos tempos atuais não sei se vou poder dizer isso pra ele amanhã. Como a moto estava na oficina ao lado de minha casa, passei lá para falar com Domingo, o dono e único trabalhador da oficina. Ele me perguntou se eu estava bem e acabei contando-lhe tudo. Ele me desejou força.

Não sei porque, mas quando as pessoas me desejam força eu acabo chorando. Até mesmo quando eu penso em alguém me dizendo eu choro, e todos sempre me desejam força! Enquanto escrevo estas palavras as lágrimas estão caindo. É inevitável. É aí que entra a primeira ironia disso tudo. Eu não sou um cara forte fisicamente, ao contrário, sou magro, mas este não é o caso. É inquestionável que psicologicamente eu sou muito forte. Isso é até complicado para mim por vários aspectos. Um deles é porque eu machuco as pessoas com o que digo, no caso a verdade, principalmente as pessoas que eu gosto e por quem tenho consideração. Outro aspecto é que não sou um cara emotivo, sou seco e duro. Como uma pedra, costumam dizer as pessoas. Não sei porque me desenvolvi assim, tenho até algumas pistas, mas o fato é que tenho uma personalidade extremamente forte.

No meu passeio com Lola pela tarde de ontem, ela me disse que iria ser muito difícil pra mim, mas que seria um grande aprendizado. Disse que eu agora estava lidando com algo que fugia ao meu controle, onde eu sou apenas um paciente, embora a minha personalidade seja a de dar ordens. A partir deste momento eu iria ter que desenvolver minha humildade. Iria ter que aprender a lidar com algo que está em contradição com o que eu quero, embora esta coisa esteja dentro de mim. Pensando bem agora, as palavras dela foram bem diferentes do que me disseram as outras pessoas. Talvez por isso fosse tão reconfortante no momento, embora naquele momento eu não tenha sido capaz de processar tal informação.

A segunda ironia é que até então a minha vida foi uma aventura. Já tive moto, já viajei milhares de quilômetros com minha moto, muitas vezes sozinho mesmo. Imagine que fui de moto de Salvador até o Rio de Janeiro, a capital nacional do narcotráfico, sozinho. Eu sou instrutor de mergulho, já desci até os setenta metros de profundidade, já mergulhei de noite, já entrei em naufrágios, já estive no meio de um cardume de mais de trezentas barracudas. Viajei sozinho pela Bolívia, Peru e Chile, subi montanhas de seis mil metros de altura, passei muito frio num dia que chegou a dezoito graus negativos, tive que comer vegetais! Cheguei andando em Machu Picchu depois de sete dias sem tomar banho. Pior, um ano depois eu repeti grande parte deste mesmo trajeto servindo de guia para meu pai! Antes de ir para a Espanha, decidi saltar de paraquedas. Pouco depois cheguei a me formar como paraquesdista. Isso sem contar outras peripécias da infância ou mesmo já maior, como começar sozinho a construção de um veleiro para que pudesse dar voltas e mais voltas ao mundo velejando por aí. Depois de tudo isso, à beira dos trinta anos, vem a notícia de que agora Companheiro está comigo! Companheiro é indesejável, não tenho a menor idéia de quando chegou e, pior, não sei o que ele levará de mim ao partir.

Não sei qual vai ser a minha reação ao encontrar meu pais, faltam pouco menos de três horas para que eu chegue à Salvador. Será que o cara de personalidade forte, de coração duro como uma pedra, que nunca teve medo de morrer vai estar ali? Ou será que eu vou desabar em lágrimas ao ouvir alguém me dizendo que tenho que ser forte? Verei algo mais na cara de meus pais do que velha e recorrente pergunta: porque ele? Porque meu filho? Porque logo uma pessoa cheia de vida, cheia de planos, cheia de idéias?

Como dizia Ritchie, a vida tem destas coisas.

abr 23

De onde vem a raiva daquele cara?

Posted on sexta-feira, abril 23, 2010 in Crônicas (minhas)

Los Hermanos já haviam escrito e cantado:

De onde vem a calma daquele cara?
Ele não sabe ser melhor, viu?

Entretanto, o que muita gente não entende é de onde vem a raiva dos usuários de Mac contra o Windows. Na verdade, esta raiva é mais presente nos “novos usuários” do que nas pessoas que já começaram usando Mac. A explicação disso é simples e bastante compreensível: novos usuários de Mac tem raiva por terem sido usuários de Windows por tanto tempo.

Isso pode parecer infantil, mas é a pura verdade. A sensação de ter sido “enganado” por tanto tempo, acreditando que usar um computador era uma tarefa difícil, resulta em uma raiva descontrolada. Isso nos permite entender também porque este “novos usuários” fazem tanta propaganda do Mac por aí. A idéia é dizer “pare de sofrer”!

Eu, como muitas pessoas, nunca pensei em usar um Mac um dia, porque me considerava um “usuário avançado” de Windows e estava confortável com isso. No Windows, nunca usei OpenOffice ou outras soluções gratuitas. Eu gosto do Word, acho o Excel extraordinário e o PowerPoint bem intuitivo embora trabalhoso. Por isso a minha tentativa de migrar para o Linux não deu certo.

Não pensem que eu “não consegui usar o Linux”. Ao contrário, desde 1996 sou usuário de Linux, e sempre consegui fazer tudo o que queria nele. O problema era a interface gráfica dele que nunca me convenceu. O Linux, na minha opinião, nunca deixou de ser um sistema operacional baseado em terminal, e seus programas sempre foram interfaces para um programa de linha de comando.

Não jugo isso ruim não, na verdade eu considerei um avanço quando a Microsoft incluiu programas de linha de comando para fazer uma série de tarefas administrativas no Windows Server 2003. Entretanto, o Linux, para mim, sempre será aquele sistema operacional onde as coisas são bastante estáveis e que funcionam bem, mas sempre, através da “tela preta”, desconfortável para ser a minha máquina pessoal.

Quando vim morar na Europa, percebi que aqui se usa muito Mac. No primeiro congresso científico que fui, quase todos usavam Mac. Isso me deixou com uma curiosidade sobre o tal sistema. Comecei a conversar com amigos que usavam Mac, comecei a ler. E me dei conta de que eu não precisava abandonar meu querido Word, o ótimo Excel, nem nada disso. Poderia usar tudo isso estando em um Mac. Isso faria a minha “migração mais fácil”. E de fato fez.

Comprei um Macbook Pro e comecei a usar. Maravilhoso… uma interface simples e que te surpreende quando voce tenta fazer uma tarefa que deveria ser complicada e então percebe que “eles” conseguiram simplificar a coisa. Logo depois descobri a “tela preta” por detrás do Leopard. Sempre soube que a família do BSD, no qual o Mac OS X é baseado, era bem parecida com o Linux, afinal já tinha usado o BSD algumas vezes… e Unix é Unix. Mas o que me surpreendeu foi a facilidade de fazer qualquer coisa que eu fazia com o Linux no meu próprio notebook! E sem perder a elegância de usar Microsoft Office! Melhor, copiando do terminal e colando no Excel… e os dois estão no mesmo sistema, no meu notebook!

Em uma semana já havia me acostumado completamente ao novo sistema. Com um pouco mais de um mes já fazia configurações avançadas e outras mágicas com o Snow Leopard. Se aproximava o Natal e então decidi dar a meu pai, que tem mais de 65 anos de anos de idade, um Mac Mini. Meus irmãos me disseram que ele não iria se adaptar ao novo sistema. Além disso, disseram outros impropérios que não vou citar aqui. Só os convenci quando ao final disse: se ele não gostar eu instalo um Windows no Mac Mini. Os dois se olharam entre si e perguntaram: isso é possível?

Chegou o Natal e meu pai recebeu o presente. Nunca o vi tão feliz, mesmo sabendo que ele não tinha a menor idéia do que de verdade significava aquilo. Instalei o Microsoft Office e copiei todos seus arquivos. Meu pai não usa mais do que a dupla “Office+Internet”. Na verdade usa sim… ele pirateia um monte de filmes e músicas.

Para minha surpresa, ao regressar à Espanha, recebo um email dele onde me perguntava qual era o melhor programa pra Torrent no Mac. E depois, qual seria um bom programa para ver os filmes. Respondi somente o nome do programa e meu pai se encarregou de buscar, baixar e instalar (instalar?!?) os programas, no final me comentou: que ótimo, não precisei instalar nenhum codec. Hã? Pois é… o coroa já estava acostumado às dificuldades do Windows.

Passaram meses e não recebia nenhuma dúvida por telefone, email, nem nada… então perguntei: como vai voce com o Mac pai? Para minha surpresa, e mais ainda de meus irmãos, ele disse que não tinha problema nenhuma, tudo ia bem. Eu evito entrar em discussão pois meu cunhado trabalha na Microsoft e é fã de carteirinha da empresa, ainda bem. No entanto, tem alguns dias que recebi uma chamada de meu irmão que dizia:

- Quando voce vier, voce pode trazer um notebook, igual ao seu, pra mim?

Hoje eu quase não uso mais o Word. Se tenho que fazer algo com qualidade e precisão gráfica, uso o TeXShop pra compilar algo com o LaTeX, se não preciso de tanta qualidade, o bom e velho TextEdit. Algo como o Bloco de Notas com capacidades de WordPad.

O Excel ainda uso, afinal ele é muito melhor do que o Excel para Windows! Imagine que ele não tem limites de columas nem de linhas! Excelente para fazer as análises estatísticas dos meu experimentos. Na hora de gerar gráficos, copio uma ou duas linhas pro Numbers, o semelhante ao Excel da Apple, e gero os gráficos por ele. A qualidade e a beleza dos gráficos é muito maior. No final das contas, tudo fica mais fácil gorando PDFs para todos os lados e incorporando-os no TeXShop.

O PowerPoint ainda uso… mas pra criar figuras e exportar PDFs também… as apresentações ficam muitos melhores, mais organizadas e mais fácies de fazer em LaTeX com o Beamer.

MSN? Gtalk? Tudo isso vai dentro do Adium, simples, leve e muito configurável… por sinal ele concentra também os contatos do ICQ, Skype e Facebook (chat). Isso porque eu só uso estes, mas tem muitos mais.

Tudo isso ao alcance de um potente terminal Unix, ou melhor, um programinha como o “Iniciar -> Executar” à duas teclas de distância: CMD+R. Sem falar da excelente IDE pra programação, o Xcode, e todo o mundo GNU por trás: gcc, automake, autoconf, libtool, m4, gdb, …

Se alguém me perguntar hoje: to Apple or not to Apple? Eu diria to Apple na mesma hora, aliás, já está perdendo tempo. Não questiono o fato de que são máquinas mais caras. Não quero entrar nesta discussão. Este não é o tema agora… mas é interessante pensar que no mundo Windows a segunda frase da música de Los Hermanos faz mais sentido:

Ele não sabe ser melhor, viu?

abr 4

Rebolation

Posted on domingo, abril 4, 2010 in Crônicas (minhas)

Desde que eu cheguei aqui na Espanha já perdi a conta de quanta coisa foi criada no Brasil em termos culturais, mais especificamente musicais.

Do que eu me lembro teve a “Dança do Quadrado”, as diversas mulheres fruta (Melancia, Jaca, etc.), as pérolas baianas de “Toda Enfiada” e alguma coisa da “Professorinha” e agora por último, mas nem por isso menos importante o “Rebolation”.

Graças a Jah, está o iutubi pra permitir um fluxo maior de informação, assim quando eu vou pro Brasil não me sinto tão deslocado. Passeando YouTube, encontrei milhares, sim milhares, de vídeos sobre o rebolation, que a partir de agora vou escrever em minúsculo porque já é de casa. Deste tutoriais (termo bem informático, não) até “As melhores 5 do Rebolation”.

Na minha opinião é interessante a dança, não digo que seja feia como é o caso do arrocha, entretanto eu percebi uma semelhança muito grande com o finado Michael Jackson. Sei lá, talvez seja apenas impressão.

Como nunca gostei de raves, psy, trance, DJs, e outros termos que nunca entendi nem nunca procurei saber o que significavam, estou ciente de que vou passar minha vida sem rebolation. Mas é interessante ver que na evolução da música eletrônica (no Brasil), ela acabou ganhando uns “passinhos”…

Uma das coisas que mais valeu a pena neste minha passeada no YouTube foram os comentários do vídeo abaixo:

Vou copiar apenas alguns:

“O que vocês estão falando? Quando essas pessoas começaram a dançar você não sabiam nem o que era Psy e muito menos Rebolation, criaram essa modinha com uma mistureba que não da pra indentificar quem? dança pior, então batam na boca antes de falar qualquer coisa, e outra pelo menos eles não fazem videos na lage de casa (Y)”
(desculpe… é comigo?)

“ae é mór briza
dança rebolation é da hora
e cada um dança do jeito q gosta
vcs fala assim pq num tem o dom
de dançar desse jeito
tudo bem q nesse video eles tão dançando móh esculacho
mais cada um tem o seu? gosto
tem gente q gosta e tem gente q naum gosta
é só respeitar os outros po”

(este escreveu em prosa)

“Em RAVE’s Eles nao Dançan O Rebolation Normal…eles dançan nesse estilo aii ….
Se você for em uma Rave e dança o rebolation Igual o Do ralph ..vc passa vergonhaa..kkkkkkkkkkk?”

(ainda bem que voce me avisou)

“bro, é uma generalização, mas a maioria lá usa drogas… nada saudável… a dança também? é muito fraca, não só visualmente/tecnicamente mas como forma de arte”
(falou tudo)

“cara, eu danco rebolation… mais vc tem razao sobre isso, mais e claro, issu chama atencao em uma festa e talz,sacas ???????
so que eu nao fiko? fazendo issu nas festa tambem, pelo amor de deus, eu do uns passinhos so, pra la pr aka de rebolantion, ai eu fiko normal de novo em pe e talz mexendo os pes do jeito normal….cada um tem seu jeito de dancar realmente, vc tem razao, gostei muito desse seu video nunca havia visto uma explicacao dessas, parabens, e a ultima comparacao foi ilaria XD. flw”

(está no direito dele, cada um no seu quadrado)

“viro uma moda de merda…um clichÊ ridiculo!! um rótulo!! enfim..TD Q UMA FESTA DE MUSICA ELETRONICA NUNKA DEVERIA SER…masss…cada um com seus problemas nao é….cada um com seu estilo…mas daki a poko vao ter 1000 pessoas dançando como nas festas dos anos 70..passinho pra la e pra ca e por ae vai!!! ABAIXO O? CLICHÊ…VAMO APRENDE UM POKO DE E-MUSIC E POR FAVOR..E N T E D Ê – L A!! VAMOS???”
(como? eu nunca consegui ouvir e-music, entender vai ser complicado, mas vou tentar… talvez a letra seja bonita)

Até este momento eu não tinha nada contra o rebolation… embora pareça uma dança meio bizarra. Seguinto um pouco na pesquisa eu encontro a versão baiana do rebolation!

Que a pedido do (imbecil) que publicou no YouTube, não posso incluir aqui, mas segue o link do YouTube.

Realmente, neste momento eu entendi o tamanho do problema. Mais uma música que ter sido tocada mil vezes no carnaval, e que como sempre, não passa de mais do que um mísero refrão. Deprimente!

mar 11

Neve em Barcelona (vídeo)

Posted on quinta-feira, março 11, 2010 in Crônicas (minhas), Vídeos Legais

mar 8

Seria Ironia?

Posted on segunda-feira, março 8, 2010 in Crônicas (minhas)

Fifi: parabéns menina! não era seu aniversário um dia destes?
Pripri: não filinha sera semana que vem. Mesmo assim obrigado!
Fifi: hum… que dia é, fofa?
Pripri: dia 11, linda
Fifi: ha tá… entao vou anotar, amor

fev 13

Culpados, Acomodados ou Simplesmente Vítimas?

Posted on sábado, fevereiro 13, 2010 in Crônicas (minhas), Interessantes, Vídeos Legais

Este vídeo é interessante. É um cara entrevistando uma ativista do Greenpeace. Na entrevista ele faz algumas perguntas realmente curiosas, tal como:

- Como voce sabe que a temperatura média está subindo?
- Porque voce acha que isso é resultado do meio de vida dos humanos?
- Voce acha que uma mudança na forma de vida faria com que parasse o aquecimento global?

Eu não tenho conhecimento conhecimento para saber se o aquecimento global é verdade ou não, muito menos para saber a gravidade do fato. Eu sou um mero espectador de tudo o que está acontecendo.

Entendo quando dizem que agora temos mais furacões do que antes e que isso é resultado do aumento de um ou dois graus na temperatura da superfície da água dos oceanos. Entendo que o nível do mar está subindo e que isso é resultado do derretimento de reservas de gelo, quer sejam nos pólos ou nas montanhas. Entendo tudo isso… mas ao mesmo tempo eu me pergunto se isso é um efeito causado pelo homem ou não.

Não duvido que o homem tenha agravado ou mesmo acelerado este processo. Mas eu duvido que este processo não seja natural. A Terra congela e queima o tempo todo… em ciclos, que aos nossos olhos parecem ciclos tão longos que nem existem.

Os seres humanos mudaram o planeta de uma forma tão drástica que parece que algo está mudando na Terra. Cidades são grandes aglomerações de “pedra”, onde antes existia um solo coberto por plantas. Mudanças na composição atmosférica causada por queimas em excesso, ou mesmo desmatamento ou outra coisa.

O que eu não acredito é que tenhamos forças para fazer algo que a natureza não faria por si só. Creio que a natureza tem algiuma forma de adaptar-se às mudanças causadas por nós. E que embora nossa vida seja cada vez mais complicada e frágil frente à tudo isso, que supostamente, estamos causando, creio que vamos nos adaptar.

Penso assim porque sempre nos adaptamos a tudo. A capacidade de adaptação do ser humano é imensa, afinal somos parte da natureza, e a natureza sempre se adapta às mudanças. Não digo que estas adaptações ocorrem sem custo algum para a sociedade, ou pelo menos para algumas sociedades.

Possivelmente faltará comida, pessoas morreram de fome, outras de câncer, frio, calor, por terremotos, enchentes, furacões, etc. Morrerão também por novas doenças, aquelas que só existem porque criamos um ambiente propício para isso. Mas é assim… a morte de uns é a salvação de outros.

Talvez o equilíbrio da Terra seja encontrado, mesmo que para isso a espécie humana deixe de existir, assim como nós mesmo extinguimos algumas, possivelmente seremos extintos em algum momento.

Só tenho certeza de uma coisa: não estarei vivo para ver isso.

fev 9

Convocatória do Peregrino

Posted on terça-feira, fevereiro 9, 2010 in Crônicas (minhas)

Voce esta sendo convidado a fazer o Caminho de Santiago durante o verão europeu.

A ideia é sair de Barcelona de trem com destino a Pamplona. Este trajeto leva umas 4 horas e pouco. De Pamplona a Roncesvalles e de aí até Saint Jean Pied-de-Port, na França.

Começamos em Saint Jean e seguimos andando por uns 30 a 35 dias até chegar em Santiago, onde em teoria terminaria a caminhada. Entretanto, como o meu objetivo não é religioso, eu pretendo seguir até o “Fim do Mundo”, Finisterre.

De Finisterre poderíamos voltar A Coruña ou mesmo a Santiago para pegar um avião a Barcelona.

Esta viagem é extremamente barata. O trajeto de trem vale uns 25 euros, o avião, comprando hoje, vale 32 euros, cada noite nos albergues do caminho tem um preço médio de 5,5 euros. Ou seja… é muito barata. Entretanto não deixa de ser muito prazerosa.

Este ano é um ano Jacobeu. Ou seja, é um ano santo. A cada 7 anos é um ano santo, quando o dia de abrir o sepulcro do santo cai num domingo. É isso ou algo parecido, não sei bem ao certo. O importante é que, por ser um ano santo, vai ter 10 vezes mais gente no caminho, o que é bom por um lado, eu prefiro assim. Além disso, várias festividades e coisas do gênero são preparadas para os peregrinos.

Eu preciso voltar a Barcelona no dia 26 de agosto mais ou menos, pois pode ser que eu tenha que ir a um congresso na Italia no dia 30. Logo a programação é sair pra Pamplona lá pro dia 15 de julho. E então fazer o caminho tranquilamente… tendo os 40 dias a vontade…

Te envio alguns documentos bons para leitura:
- História
- Conselho
- O Caminho Françês

A fonte destes documentos é: http://caminodesantiago.consumer.es/

São 800 km com mochila as costas. Provavelmente andando de 4 a 6 horas por dia. Isso é: ou pela manhã, ou pela tarde. Não se andará o dia inteiro. A mochila conterá poucas coisas, como 3 camisetas, 2 bermudas, 1 calça e 2 meias, além de um saco de dormir e material de higiene pessoal.

Analise a proposta e em caso de positivo, me informe. Já pretendo reservar a passagem de avião de volta, afinal 30 euros vale a pena reservar logo, mesmo que perca depois. Na hora este voo custará em torno de 200 euros. O trem não é problema, não sobe de preço e é um trajeto não muito cobiçado.

Veja as datas em que voce deveria chegar à Espanha e retornar ao Brasil, no seu caso o mais complicado é o bilhete de avião pra cruzar o charco (atlântico).

O Peregrino

fev 4

O Universo em Expansão

Posted on quinta-feira, fevereiro 4, 2010 in Crônicas (minhas)

Dizem que o universo está em expansão. Eu não estou seguro disso, mas de uma coisa eu tenho certeza, o universo feminino pelo menos está. Digo isso baseado em uma pura e simples observação doméstica.

Eu sou responsável por guardar as comprar do mês no armários. Como qualquer apartamento moderno, o espaço é reduzido, qualquer esquina precisa ser aproveitada. Ainda assim, guardar as compras do mês não deixa de ser uma tarefa complicada, necessitando habilidades de equilibristas, engenheiros, rolos compressores e também lixeiros.

Eu reconheço que sou uma pessoa de hábitos simples. Como quase sempre as mesmas coisas, logo quase sempre os mesmo ingredientes. Dentro do que se pode comer excluindo verduras, frutas e vegetais (salvo pequenas exceções) eu combino os ingredientes para criar uma sensação de variedade.

Voltando à questão da expansibilidade do universo, no caso o feminino, eu me dou conta que como sempre o mesmo tipo de macarrão: Speguettoni no. 7 da Barilla. Guarda-los no armário é tão simples como empilhar um pacote em cima do outro. São pacotes quadrados de 500g. Pela altura da prateleira destinada a isso, cabem exatamente 8 pacotes. O que me dá um suprimento de 4 Kg de pasta! Eu como aproximadamente 120 gramas por dia, fazendo as contas isso dá e sobra pra um mês. Assim, antes de sair pra comprar eu vejo quantos pacotes preciso comprar para completar os 8 pacotes necessários.

As compras do mês chegaram e eu tive que, como sempre, guarda-las nos armários. Ao lado da minha pilha de 8 pacotes de macarrão estão 17 saquinhos de tamanhos, cores e conteúdo variados. Estes saquinhos, em sua grande maioria foram parcialmente consumidos, o que exige o uso de um pregador de roupa para o correto fechamento dos mesmos. Isso tudo ocupa, em média, 7 vezes mais espaço do que a minha pilha de 4 Kg de macarrão. Por curiosidade, resolvi pesar o conteúdo destes saquinhos. Todos os 17 saquinhos juntos, com os devidos pregadores de roupa, não chegam a somar 2 Kg de pasta.

Eu reconheço a variedade de pasta que existem naqueles saquinhos, realmente tem de todos os tipos que eu já havia visto na minha vida. Acrescento alguns que não tem nome ou que pelo menos eu não sei o nome. A questão do universo feminino em expansão se mostra bastante presente neste exemplo. Este mês vieram mais 3 saquinhos de pasta. Apenas um deles é de um modelo já existente no armário, dois são completamente novos para mim! Neste exato momento, o universo feminino se expandiu, e passou a ocupar 8 vezes mais espaço que o universo masculino. Pelo menos em minha casa.

Embora no exemplo do macarrão o universo masculino não tem se contraído, existem casos em que isso ocorre. Um outro armário está formado por 3 prateleiras. Este universo de 3 prateleira está, originalmente, dividido de forma igual. Uma prateleira e meia para cada um. A pessoa mais baixa usa a prateleira mais baixa, a pessoa mais alta usa a prateleira do meio, e a última prateleira guarda produtos repetidos ou de uso esporádico.

Inexplicavelmente, caixas de chá (que hoje somam 8), latas de brotos de soja, milho, aspargos, atum, mexilhões a escabeche, pães alemães (como pode um pão pesar meio quilo?) e outros produtos, começam a escalar, uns sobre os outros, e migram da primeira para a segunda prateleira. Isso é a prova viva do universo feminino em expansão. E ao mesmo tempo a constatação de um outro fato, tão importante quanto o primeiro:

Sendo o universo doméstico de tamanho inalterável, a expansão do universo feminino significa, obrigatoriamente, a contração do universo masculino.

P.S.: casos semelhantes passam com gavetas, prateleiras de sapatos, etc.

fev 2

Lost & Yemanjá

Posted on terça-feira, fevereiro 2, 2010 in Crônicas (minhas)

Hoje é 2 de fevereiro, dia de Yemanjá. Espero que isso faça com que a sexta temporada de Lost (que começa hoje) sejá boa, que todos os episódios superem as expectativas de espera de uma semana, e que os diretores tenham pensado boas respostas para todos os mistérios que criaram e alimentaram ao longo das 5 temporadas anteriores.