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Prólogo

Posted on terça-feira, maio 4, 2010 in Crônicas (minhas)

Atlântico (voando), 7 de abril de 2010.

Estou voltando para Salvador, mais precisamente estou no voo 157 da TAP. Me diagnosticaram um câncer de pele, “modelo” melanoma. Segundo o que minha mãe entendeu e me disse por telefone, meu companheiro câncer está no nível três. Procurei na internet e vi que este tipo de câncer possui cinco níveis. Pelo que li começa com zero e vai até quatro. Mas também pode ser que o médico tenha dito três pra minha mãe considerando que a contagem começa de um e vai até cinco. Espero que seja assim, porque desta maneira eu ganho um nível. Neste momento ganhar um nível significa sair de 20 à 60% para 80 à 90% de chance de sobreviver pelo menos cinco anos após o tratamento.

Não sou um expert em melanoma, não ainda. A única informação que tenho foi o que li ontem na Wikipedia, na versão em inglês, porque a versão em português é bem fraquinha. Se meu Companheiro estiver no nível dois o tumor ainda esta na derme, a camada logo abaixo da epiderme, que é o que conhecemos como pele. Entretanto, caso meu Companheiro esteja no nível três, a cobra vai fumar. O nível três quer dizer que já passou pro estágio de metástase, que é a migração de Companheiro para outros órgãos. Inicialmente Companheiro vai para os gânglios linfáticos, e ali é conhecido como câncer linfático. Outros possíveis passeios de Companheiro o levam ao fígado e ao cérebro. É aí que entra a cobra fumando na história.

Um detalhe à considerar é que hoje faltam oito dias pro meu trigésimo aniversário. Exatamente, eu ainda não tenho 30 anos. Recebi a notícia ontem, dia 6. Estava na Universidade, sem conseguir trabalhar direito, pois já esperava a ligação de minha mãe. Nunca imaginei que o resultado da biópsia pudesse ser tão cruel. Acho que esta palavra não define bem o que passou pela minha cabeça naquele dia. Enquanto minha mãe me falava com uma voz incrivelmente serena como seria o tratamento, quanto tempo duraria, uma coisa veio imediatamente a minha cabeça: F-U-D-E-U! É maluco… a casa caiu.

Eu sabia o que tinha que fazer, ainda que houvera algo ameaçando a minha vida, eu consegui manter a razão. Claro que chorei. Mas sabia exatamente o que tinha que fazer. Desliguei o telefone, fiquei alguns segundos olhando fixamente para o nada, me levantei a fui à sala do chefe. O chefe é o investigador principal do grupo de pesquisa no qual eu estou fazendo meu doutorado na Universidade Autònoma de Barcelona – UAB.

Emílio, o chefe, sabia que eu tinha ido ao Brasil no dia 24 de março, antes da Semana Santa, para fazer uma visita ao médico. Na verdade eu não expliquei muito bem à ele o que iria fazer quando disse que iria ao Brasil. Mas acredito que ele sabia, pois Lola, a namorada dele (acho que é esta a categoria em que o relacionamento deles se encaixa) e minha diretora de tese, provavelmente já devia ter informado. Como eu havia esquecido de informar à Lola sobre a minha viagem, ela me mandou um email perguntando porque eu tinha ido ao Brasil. Pedi desculpas por não haver informado, eu realmente havia esquecido, e disse que tinha viajado para ir ao médico, um oncologista com quem eu já havia me consultado antes. O detalhe é que haviam cinco anos que eu não voltava nele, embora o mesmo tenha me dito categoricamente que eu tinha que ir todos os anos. Expliquei à Lola, que iria remover três sinais e que o médico iria pedir uma biópsia.

Até então, na minha cabeça eu sabia tudo o que isso poderia vir a ser, tinha completa consciência de tudo. Mas na minha mente ainda pairava a velha idéia: “que porra nenhuma… não vai ser nada”. Ledo engano.

- Chefe, preciso falar com você – disse eu ao abrir a porta.

- Hombre! Já está de volta?

- Já, mas preciso regressar o mais rápido possível. Me diagnosticaram um câncer de pele do tipo melanoma nível três – vomitei todas as palavras de uma só vez, sem respirar.

Dava pra ver a cara dele se transformando em algo que eu nunca consegui decifrar, e que apesar dos quase três anos trabalhando ao lado dele, nunca havia visto antes. Fui saindo da sala pois já estava com a voz embargada enquanto ouvia ele me dizer que eu poderia contar com ele para qualquer apoio, para o que fosse necessário. Mas a verdade é que neste momento eu só precisava de uma coisa: chorar. E chorei… não muito na verdade, mas chorei o que tinha pra chorar naquele momento. Fumei dois cigarros enquanto chorava na garagem da Escola Técnica Superior de Engenharia da UAB. Neste momento estava saindo uma das professoras do nosso departamento, e como de praxe me cumprimentou com da forma de sempre:

- E aí Leo, tudo bem? – perguntou-me Anna Morajko.

- Não.

- Ué, o que está acontecendo, algo ruim?

- Muito, você não tem idéia Ania.

- Então depois você explica, agora tenho que ir – me respondeu enquanto seguia com o carro, provavelmente para ir buscar os filhos na escola.

A minha razão ainda me dizia que eu precisava fazer algumas coisas. Uma delas era informar à minha diretora de tese, não poderia esquecer de Lola outra vez, e à Tomàs Margalef, o diretor do departamento. Além disso deveria providenciar a passagem de avião e dar uma aula das 18:30 às 21:00. Eram 16:30. Subi o elevador, fui ao banheiro, limpei o nariz cheio de meleca do chororô e levei um pedaço extra de papel para a sala de Tomàs.

Bati na porta da sala de Tomàs e ao abrir encontrei reunidos: Lola, Tomàs e Ana Cortès, a responsável pela matéria da aula que eu tinha que dar mais tarde. Aproveitei a sorte de encontrar todo mundo junto e exclamei:

- Ótimo que estão todos juntos!

Lola olhou para a minha cara, e perguntou:

- Recebeu o resultado dos exames? Está tudo bem?

Neste momento eu não pude segurar o choro. Ainda bem que ela se levantou rápido e me abraçou, porque minha perna começou a tremer. Eu pensava que perna tremendo era somente uma expressão, mas neste dia eu descobri que a expressão tem fundamento. Pela imagem meio borrosa que se formava através das lágrimas pude perceber Ana perguntando a Tomàs o que estava acontecendo. Tomàs sabia da minha viagem, mas provavelmente não sabia o motivo dela. Eu e Lola ficamos abraçados ao estilo “chora, chora que faz bem” por mais de um minuto. E eu chorava. Chorava e limpava o nariz no PH (papel higiênico) que tinha arrumado no banheiro. Eram tantas emoções, mais até do que as que Roberto Carlos podia cantar, que o choro, embora necessário e inevitável, não estava funcionando. Aquilo não estava me aliviando em nada, mas de fato estava me confortando. Só me lembro de ter chorado em público duas vezes. Esta era a terceira.

Ainda tinha que dizer o que havia acontecido, afinal até então a única coisa que eles sabiam é que eu estava chorando. Afrouxei o abraço com Lola, respirei o que pude, limpei algumas lágrimas e expliquei tudo. Olhava para Tomàs, que alguns meses atrás tinha perdido a esposa para o câncer também, e via como ele abaixava a cabeça e expressava um bom e conhecido joder!. Joder equivale à um “caralho” em português do Brasil. Percebi a mesma expressão em Ana, que segundo às más línguas, principalmente a minha, era a atual namorada de Tomàs. Ana se separou do marido, que também é professor do mesmo departamento, logo após a morte da esposa de Tomàs. Além do mais os dois sempre foram muito próximos, eu posso até estar errado, mas duvido que eles não estejam tendo nada.

Ao mesmo instante que souberam da situação Ana Cortès pediu para que não me preocupasse com as aulas, alguém iria em meu lugar. A cara de Tomàs continuava nem semblante perdido… Ana se levantou e me deu um abraço sincero. Ela é uma coroa arrumada, se não estivesse namorando com Tomàs, eu até que daria umas olhadas de prospecção, mas Tomàs é muito gente boa, logo a minha ética me proíbe.

Ao contrário de muitos outros alunos do doutorado, eu sempre tive uma excelente relação com Tomàs. Mesmo antes dele virar diretor do departamento. Acredito que nossa boa relação começou no dia em que ele me ouviu dizer, em sala de aula, que havia passado a noite inteira fudendo e por isso estava com sono. Juro que falei baixo, não sei como ele ouviu. Na hora inventei uma desculpa esfarrapada de que havia dito “estudando”. Em espanhol até que cola, pois as palavras se parecem. Tomàs também me deu um abraço sincero. Tão sincero quando o que eu dei nele no dia do enterro da esposa dele.

Fiquei alguns minutos na sala antes de que Lola me chamasse para dar um passeio fora do edifício. Na verdade eu queria comprar a passagem, mas a presença daquela mulher ao meu lado me confortava de alguma forma. Acho que o fato dela ter tido várias perdas na família também por questões de doença fizeram ela ser bastante reconfortante neste aspecto. Não digo pelas palavras, pois as palavras nestes momento são sempre as mesma. Mas a sinceridade e a emoção que acompanhavam as palavras eram reconfortante.

Fumei mais dois cigarros enquanto dávamos nosso passeio, aproveitei e contei à ela como havia sido a minha viagem anterior ao Brasil, onde encontrei com outros dois ex-companheiros de doutorado para falar sobre um artigo que queríamos publicar. Acho que neste dia foi realmente o dia em que eu vi Lola falar com o coração. Em outras situações que estive com ela brigando, discutindo, fazendo as pazes ou mesmo me redimindo, sempre fomos muito sinceros. Mas neste dia era diferente. Parecia que ela entendia a minha dor.

Ao subirmos no elevador ela me perguntou o que eu iria fazer depois do doutorado. Sinceramente eu não sabia o que responder. Sempre tive muito claro em minha cabeça o que iria fazer. Mas neste momento eu tinha um problema: não sabia se estaria vivo para isso, então como responder? Resolvi dizer os planos que tinha antes de saber que tinha Companheiro no braço. Sim, o câncer se desenvolveu no braço direito, na parte externa, a que toma sol, claro.

- Lola, veja bem, eu pretendo fazer dois ou três pós-doutorados pelo mundo. Quero viajar, aprender outros idiomas, ganhar fluência em inglês. Pretendo fazer isso por cinco à dez anos.

- E depois? Onde pretende fincar raízes? – me perguntou Lola.

- Não quero morar nos Estados Unidos. No Brasil pesquisador morre de fome. Provavelmente vou ficar por aqui mesmo pela Europa.

- Ótimo. – esta foi a única resposta dela.

Ao chegar em minha sala, que é compartilhada com mais dezenove pessoas, eu tinha claro o que deveria fazer. Comprar a passagem. Liguei para meu pai. Foda-se se é ligação internacional de celular para celular. Companheiro esta aqui, esta visita indesejável alojada no braço e que preciso me livrar dele o mais rápido possível.

- Bicho – esta é uma dos formas em que nos dirigimos um ao outro – já está sabendo?

- Não, qual foi o resultado? – Neste momento me lembrei que meu pai, ao se despedir de mim no aeroporto, havia dito que como eu “nasci com a bunda virada pra lua” o exame não ia dar em nada. À propósito, “nascer com a bunda virada pra lua” é apenas uma expressão de ter sorte.

- Deu merda. é câncer, melanoma nível três, vai de um a cinco. – Neste momento eu ainda não sabia o lance dos níveis, estava apenas repetindo o que minha mãe havia me contado.

- Porra bicho, e o que voce quer que eu faça?

Eu ainda não havia entendido porque minha mãe não ainda não tinha contado para meu pai. A única explicação seria o fato de que provavelmente ela estava por algumas horas com a visão fixa no nada, aquela mesma que me durou alguns segundos. Filho é filho, ainda mais eu o caçula. Me dei conta que minha mãe pretendia esperar meu pai chegar em casa para contar. Provavelmente para não aterrorizar o coroa de 66 anos, coisa que eu acabei fazendo. Mas lá em casa é assim, todo mundo reage mais ou menos bem às más notícias.

Informei a meu pai que iria pedir à Andreia, da agência de viagens, que mudasse a passagem que eu tinha para ir no Natal e que ele ficasse alerta para resolver qualquer problema ou mesmo pagar a taxa de mudança se fosse necessário. Ele reagiu bem. Ouviu tudo e se lamentou pelo resultado do exame. Em poucos minutos já havia enviado o email para Andreia, e não tinha mais nada para fazer na UAB. Lola e Emílio estavam na sala dos estudantes, claramente para me dar apoio, mas o que eu queria era ir embora. Expliquei para Gonzalo Zarza o que deveria fazer na aula de hoje com os alunos, era ele quem iria dar a aula em meu lugar. Ele ouviu tudo, na verdade nem precisava, pois ele dava a mesma matéria. Entretanto não saía da cara dele a pergunta: o que está acontecendo?

Os únicos que sabiam que eu tinha tirado um pedaço do braço para analisar foram os que me cumprimentaram durante a manhã e ameaçaram dar um tapinha nos meu pontos. Estas pessoas se resumiam a Álvaro Chalar, um boliviano da melhor qualidade, com quem dividi apartamento por uns 6 meses, Diego Lugones, um argentino meio “menino grande”, mas de bom coração, e Don Porfídio Hernadez, um professor do departamento. Todos concordavam com meu pai, e diziam para eu relaxar que isso não iria ser nada. Eu estava o mais relaxado que podia. Afinal porque um cara gente boa que nem eu iria ter um câncer antes dos trinta anos?

Então fui me despedir de Álvaro e Gonzalo, expliquei o que estava acontecendo, não ouvi muitas palavras, mas recebi muitos abraços. Me despedi também, mas sem muitas explicações, de Hayden Stainsby, o australiano mais gente boa que eu conheço, embora que de australiano só conheça ele, o cara é realmente gente boa. Foi quando João Artur Dias Lima Gramacho, o que tem nome de nobre, um cara de pouca palavras mas de atitudes nobres, é claro, me disse que iria me acompanhar até Barcelona. Neste momento passa Ronal, um venezuelano, que embora gente boa, custa ter uma relação maior do que o superficial com as pessoas, me perguntou o que estava acontecendo. Isso é interessante porque em espanhol essa pergunta normalmente é feita assim: ¿qué te pasa?. E pra isso eu arrumei em milisegundos a resposta perfeita: câncer. Os olhos deles se abriram até quase pular fora das órbitas, e então vieram as palavras que, embora sinceras, devolveram à superficialidade a nossa relação. Recebi mais um abraço sincero.

Ao descermos pelo elevador, Jonny Boy, o que tem nome de nobre, me disse que já havia informado à Eduardo, o Argollo, e que, como Alfrânio estava aqui em Barcelona, propôs sairmos para tomar uma. Eduardo na sempre educada forma de falar, perguntou se eu aceitava ou se isso seria um incômodo pra mim. Porra, eu descobri um câncer, não é cirrose, e nem no fígado é o câncer! Claro que eu quero tomar uma! O que melhor do que cachaça pra esquecer das nossas mazelas? Como ele trabalha na HP, que fica perto da UAB, ele nos ofereceu uma carona. Ao entrar no carro, ele me disse que, desde que soube, uma hora antes, já havia lido um monte de coisas sobre melanoma e me perguntou se eu estava com os gânglios inflamados. Ao dizer que não, Doutor Eduardo, sim ele tem Ph.D mas não é médico, diagnosticou Companheiro como sendo de nível dois. Me falou do tratamento, e etc. Depois percebi que a fonte dele deve ter sido a mesma que eu a minha, pois a informação estava correta em todos os aspectos.

Entramos no bar, bebemos, comemos e esquecemos do assunto. Eu não tenho dúvida que tudo isso foi uma tentativa de afastar minha cabeça do problema. Uma tentativa sincera, e que funcionou. Claro que eu gosto da companhia deles, senão não seriam meus amigos, mas sair pra um bar as cinco e meia da tarde de uma terça-feira e faltar o curso de alemão, não é uma atitude normal para Eduardo. Eu percebi o esforço dele. E o de João também, afinal ele deveria estar em casa fazendo a janta pra Graziela. Graziela é a namorada-esposa dele, coincidentemente amiga minha de infância. Mais coincidentemente encontramos ela no metrô, enquanto voltávamos para casa. Ela foi informada dos fatos, mas levou algumas horas digerindo a idéia, pois me mandou uma mensagem meia-noite e meia. Enquanto eu estava no bar minha mãe me ligou dizendo que Andreia confirmou minha passagem para o dia seguinte, meio-dia. Ao sair recebi mais três abraços sinceros.

Já em casa, lá pelas onze da noite Álvaro Chalar me liga. Me deseja força e que eu fique bom, logo passou para Zeynep, sua esposa, uma turca que ele conheceu no Japão e com quem mora na Espanha. Isso sim que é globalização! Zeynep me saudou em espanhol, mas logo pediu para falar em inglês, para que pudesse expressar o que estava sentindo. Me desejou força outra vez, e disse que embora tenha pouco contato comigo, ela gosta muito de mim. É recíproco. Eu também gosto muito dela, e de Álvaro é claro. Eles tem uma simplicidade e sinceridade que, como diz Gonzalo, é difícil alguém não gostar deles. A ligação de Zeynep me tocou. O fato dela não ser muito próxima, o fato de ser uma pessoa que pela qual eu tenho muita estima, mas também pelo que ela me falou. Pediu para que eu fosse forte e não desistisse.

Arrumei uma pequena mala e fui para a cama, onde por muitas horas não consegui dormir.

Lola voltou a me ligar pela manhã. Pelo telefone é meio complicado sentir o mesmo reconforto, pois eu não sei o que responder aos desejos de melhoras e saúde que as pessoas me dirigem. Aproveitei para informar a Alexandre Ganso Strube de tudo o que estava acontecendo, afinal, ele estava na Alemanha, e cairia de pára-quedas em meio a tudo isso, além dos próprios problemas dele. Eu também precisava pedir para que ele levasse minha moto à Universidade. Claro que ele iria me ajudar, afinal acredito que poucas pessoas vêem Alexandre como ele realmente é. Eu vejo, e mais, aceito e respeito ele. Não sei se ele sabe disso, vou dizer logo, afinal nos tempos atuais não sei se vou poder dizer isso pra ele amanhã. Como a moto estava na oficina ao lado de minha casa, passei lá para falar com Domingo, o dono e único trabalhador da oficina. Ele me perguntou se eu estava bem e acabei contando-lhe tudo. Ele me desejou força.

Não sei porque, mas quando as pessoas me desejam força eu acabo chorando. Até mesmo quando eu penso em alguém me dizendo eu choro, e todos sempre me desejam força! Enquanto escrevo estas palavras as lágrimas estão caindo. É inevitável. É aí que entra a primeira ironia disso tudo. Eu não sou um cara forte fisicamente, ao contrário, sou magro, mas este não é o caso. É inquestionável que psicologicamente eu sou muito forte. Isso é até complicado para mim por vários aspectos. Um deles é porque eu machuco as pessoas com o que digo, no caso a verdade, principalmente as pessoas que eu gosto e por quem tenho consideração. Outro aspecto é que não sou um cara emotivo, sou seco e duro. Como uma pedra, costumam dizer as pessoas. Não sei porque me desenvolvi assim, tenho até algumas pistas, mas o fato é que tenho uma personalidade extremamente forte.

No meu passeio com Lola pela tarde de ontem, ela me disse que iria ser muito difícil pra mim, mas que seria um grande aprendizado. Disse que eu agora estava lidando com algo que fugia ao meu controle, onde eu sou apenas um paciente, embora a minha personalidade seja a de dar ordens. A partir deste momento eu iria ter que desenvolver minha humildade. Iria ter que aprender a lidar com algo que está em contradição com o que eu quero, embora esta coisa esteja dentro de mim. Pensando bem agora, as palavras dela foram bem diferentes do que me disseram as outras pessoas. Talvez por isso fosse tão reconfortante no momento, embora naquele momento eu não tenha sido capaz de processar tal informação.

A segunda ironia é que até então a minha vida foi uma aventura. Já tive moto, já viajei milhares de quilômetros com minha moto, muitas vezes sozinho mesmo. Imagine que fui de moto de Salvador até o Rio de Janeiro, a capital nacional do narcotráfico, sozinho. Eu sou instrutor de mergulho, já desci até os setenta metros de profundidade, já mergulhei de noite, já entrei em naufrágios, já estive no meio de um cardume de mais de trezentas barracudas. Viajei sozinho pela Bolívia, Peru e Chile, subi montanhas de seis mil metros de altura, passei muito frio num dia que chegou a dezoito graus negativos, tive que comer vegetais! Cheguei andando em Machu Picchu depois de sete dias sem tomar banho. Pior, um ano depois eu repeti grande parte deste mesmo trajeto servindo de guia para meu pai! Antes de ir para a Espanha, decidi saltar de paraquedas. Pouco depois cheguei a me formar como paraquesdista. Isso sem contar outras peripécias da infância ou mesmo já maior, como começar sozinho a construção de um veleiro para que pudesse dar voltas e mais voltas ao mundo velejando por aí. Depois de tudo isso, à beira dos trinta anos, vem a notícia de que agora Companheiro está comigo! Companheiro é indesejável, não tenho a menor idéia de quando chegou e, pior, não sei o que ele levará de mim ao partir.

Não sei qual vai ser a minha reação ao encontrar meu pais, faltam pouco menos de três horas para que eu chegue à Salvador. Será que o cara de personalidade forte, de coração duro como uma pedra, que nunca teve medo de morrer vai estar ali? Ou será que eu vou desabar em lágrimas ao ouvir alguém me dizendo que tenho que ser forte? Verei algo mais na cara de meus pais do que velha e recorrente pergunta: porque ele? Porque meu filho? Porque logo uma pessoa cheia de vida, cheia de planos, cheia de idéias?

Como dizia Ritchie, a vida tem destas coisas.

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