RSS Feed

De onde vem a raiva daquele cara?

Posted on sexta-feira, abril 23, 2010 in Crônicas (minhas)

Los Hermanos já haviam escrito e cantado:

De onde vem a calma daquele cara?
Ele não sabe ser melhor, viu?

Entretanto, o que muita gente não entende é de onde vem a raiva dos usuários de Mac contra o Windows. Na verdade, esta raiva é mais presente nos “novos usuários” do que nas pessoas que já começaram usando Mac. A explicação disso é simples e bastante compreensível: novos usuários de Mac tem raiva por terem sido usuários de Windows por tanto tempo.

Isso pode parecer infantil, mas é a pura verdade. A sensação de ter sido “enganado” por tanto tempo, acreditando que usar um computador era uma tarefa difícil, resulta em uma raiva descontrolada. Isso nos permite entender também porque este “novos usuários” fazem tanta propaganda do Mac por aí. A idéia é dizer “pare de sofrer”!

Eu, como muitas pessoas, nunca pensei em usar um Mac um dia, porque me considerava um “usuário avançado” de Windows e estava confortável com isso. No Windows, nunca usei OpenOffice ou outras soluções gratuitas. Eu gosto do Word, acho o Excel extraordinário e o PowerPoint bem intuitivo embora trabalhoso. Por isso a minha tentativa de migrar para o Linux não deu certo.

Não pensem que eu “não consegui usar o Linux”. Ao contrário, desde 1996 sou usuário de Linux, e sempre consegui fazer tudo o que queria nele. O problema era a interface gráfica dele que nunca me convenceu. O Linux, na minha opinião, nunca deixou de ser um sistema operacional baseado em terminal, e seus programas sempre foram interfaces para um programa de linha de comando.

Não jugo isso ruim não, na verdade eu considerei um avanço quando a Microsoft incluiu programas de linha de comando para fazer uma série de tarefas administrativas no Windows Server 2003. Entretanto, o Linux, para mim, sempre será aquele sistema operacional onde as coisas são bastante estáveis e que funcionam bem, mas sempre, através da “tela preta”, desconfortável para ser a minha máquina pessoal.

Quando vim morar na Europa, percebi que aqui se usa muito Mac. No primeiro congresso científico que fui, quase todos usavam Mac. Isso me deixou com uma curiosidade sobre o tal sistema. Comecei a conversar com amigos que usavam Mac, comecei a ler. E me dei conta de que eu não precisava abandonar meu querido Word, o ótimo Excel, nem nada disso. Poderia usar tudo isso estando em um Mac. Isso faria a minha “migração mais fácil”. E de fato fez.

Comprei um Macbook Pro e comecei a usar. Maravilhoso… uma interface simples e que te surpreende quando voce tenta fazer uma tarefa que deveria ser complicada e então percebe que “eles” conseguiram simplificar a coisa. Logo depois descobri a “tela preta” por detrás do Leopard. Sempre soube que a família do BSD, no qual o Mac OS X é baseado, era bem parecida com o Linux, afinal já tinha usado o BSD algumas vezes… e Unix é Unix. Mas o que me surpreendeu foi a facilidade de fazer qualquer coisa que eu fazia com o Linux no meu próprio notebook! E sem perder a elegância de usar Microsoft Office! Melhor, copiando do terminal e colando no Excel… e os dois estão no mesmo sistema, no meu notebook!

Em uma semana já havia me acostumado completamente ao novo sistema. Com um pouco mais de um mes já fazia configurações avançadas e outras mágicas com o Snow Leopard. Se aproximava o Natal e então decidi dar a meu pai, que tem mais de 65 anos de anos de idade, um Mac Mini. Meus irmãos me disseram que ele não iria se adaptar ao novo sistema. Além disso, disseram outros impropérios que não vou citar aqui. Só os convenci quando ao final disse: se ele não gostar eu instalo um Windows no Mac Mini. Os dois se olharam entre si e perguntaram: isso é possível?

Chegou o Natal e meu pai recebeu o presente. Nunca o vi tão feliz, mesmo sabendo que ele não tinha a menor idéia do que de verdade significava aquilo. Instalei o Microsoft Office e copiei todos seus arquivos. Meu pai não usa mais do que a dupla “Office+Internet”. Na verdade usa sim… ele pirateia um monte de filmes e músicas.

Para minha surpresa, ao regressar à Espanha, recebo um email dele onde me perguntava qual era o melhor programa pra Torrent no Mac. E depois, qual seria um bom programa para ver os filmes. Respondi somente o nome do programa e meu pai se encarregou de buscar, baixar e instalar (instalar?!?) os programas, no final me comentou: que ótimo, não precisei instalar nenhum codec. Hã? Pois é… o coroa já estava acostumado às dificuldades do Windows.

Passaram meses e não recebia nenhuma dúvida por telefone, email, nem nada… então perguntei: como vai voce com o Mac pai? Para minha surpresa, e mais ainda de meus irmãos, ele disse que não tinha problema nenhuma, tudo ia bem. Eu evito entrar em discussão pois meu cunhado trabalha na Microsoft e é fã de carteirinha da empresa, ainda bem. No entanto, tem alguns dias que recebi uma chamada de meu irmão que dizia:

- Quando voce vier, voce pode trazer um notebook, igual ao seu, pra mim?

Hoje eu quase não uso mais o Word. Se tenho que fazer algo com qualidade e precisão gráfica, uso o TeXShop pra compilar algo com o LaTeX, se não preciso de tanta qualidade, o bom e velho TextEdit. Algo como o Bloco de Notas com capacidades de WordPad.

O Excel ainda uso, afinal ele é muito melhor do que o Excel para Windows! Imagine que ele não tem limites de columas nem de linhas! Excelente para fazer as análises estatísticas dos meu experimentos. Na hora de gerar gráficos, copio uma ou duas linhas pro Numbers, o semelhante ao Excel da Apple, e gero os gráficos por ele. A qualidade e a beleza dos gráficos é muito maior. No final das contas, tudo fica mais fácil gorando PDFs para todos os lados e incorporando-os no TeXShop.

O PowerPoint ainda uso… mas pra criar figuras e exportar PDFs também… as apresentações ficam muitos melhores, mais organizadas e mais fácies de fazer em LaTeX com o Beamer.

MSN? Gtalk? Tudo isso vai dentro do Adium, simples, leve e muito configurável… por sinal ele concentra também os contatos do ICQ, Skype e Facebook (chat). Isso porque eu só uso estes, mas tem muitos mais.

Tudo isso ao alcance de um potente terminal Unix, ou melhor, um programinha como o “Iniciar -> Executar” à duas teclas de distância: CMD+R. Sem falar da excelente IDE pra programação, o Xcode, e todo o mundo GNU por trás: gcc, automake, autoconf, libtool, m4, gdb, …

Se alguém me perguntar hoje: to Apple or not to Apple? Eu diria to Apple na mesma hora, aliás, já está perdendo tempo. Não questiono o fato de que são máquinas mais caras. Não quero entrar nesta discussão. Este não é o tema agora… mas é interessante pensar que no mundo Windows a segunda frase da música de Los Hermanos faz mais sentido:

Ele não sabe ser melhor, viu?

Be the first to comment.

Leave a Reply